SAÚDE/COMPORTAMENTO

A ADOLESCÊNCIA TEM LEVADO CADA VEZ MAIS PAIS A BUSCAREM POR AJUDA DE PROFISSIONAIS E ESPECIALISTAS.

 A adolescência tem levado cada vez mais pais a buscarem por ajuda de profissionais e especialistas.

SAÚDE/COMPORTAMENTO

24/11/2018 3
Numa tentativa desesperada de corrigir esses comportamentos e buscando o melhor para os seus filhos, os pais cercam-nos de castigos, privações, punições que aumentam ainda mais os sentimentos de frustrações e solidão destes adolescentes.

Tudo corria bem, ele era uma criança dócil, educada, participativa, até tinha as suas birras, as suas dificuldades e os seus dias menos bons, mas nada que uma boa conversa e um colo não resolvessem essas questões.

De repente algo mudou, alguma coisa aconteceu, sem que eu me apercebesse comecei a perder o meu filho, perdi para um quarto fechado, para um mundo escuro, para um infinito abismo de silêncio e distância que se fazia entre nós.

 

Deixou de ser aquele menino que eu conhecia tão bem para alguém que mais parece um estranho. Um estranho que odeia esta casa, estas relações, odeia tudo aquilo que um dia representou ser o seu lar.

Tudo ficou sombrio, escuro e assustador, já não conseguia fazer contato com ele, ter um gesto de carinho, ou uma ligação no olhar, aqueles olhos já não tinham o mesmo brilho.

 

Toda segurança que eu sentia de ter uma família, filhos felizes, foi se desvanecendo como uma tempestade que chega de repente, transformando uma dia lindo de sol em algo frio, cinzento e assustador. Passei a ter dúvidas, questões que nunca tinham respostas. Passei a sentir uma culpa súbita e uma dor que invadia o meu peito todos os dias, a cada instante eu me perguntava: “onde foi que eu errei”?

 

O que poderia ter acontecido, quando foi que o meu filho se tornou em alguém tão estranho pra mim?

Sinto como se já não o conhecesse mais, já não sei quais são os seus sonhos, seus desejos, suas vontades, seus medos. O único percalço de sentimentos que sinto por parte dele é uma repulsa por viver aqui, é essa insatisfação, um misto de tristeza e raiva que grita ainda que em silencio sem dizer uma palavra sequer.

 

Muitos pais tem vivido cada vez mais essa realidade nos dias de hoje quando os seus filhos entram na tão temida adolescência, é uma mudança brusca sentida por todos levando cada vez mais pais a buscarem por ajuda de profissionais e especialistas no sentido de ter suas perguntas respondidas e seus pedidos de socorro atendidos.

 

Crianças que outrora eram dóceis e amáveis passaram a ter comportamentos discrepantes e nada condizentes à educação que receberam dos pais.

Que fase tão complicada é essa?

É uma fase de grandes mudanças físicas, mentais, emocionais, sociais, entre outras. É uma descoberta enquanto indivíduos, uma afirmação de um ser diferente dos pais, uma busca de expressar sua identidade e personalidade, uma manifestação para ser socialmente aceite, pertencente a um “clã”.

 

Do ponto de vista biológico também ocorrem várias mudanças. Esta fase dá início à puberdade e todas as alterações recorrentes da mesma. Há mudanças nos órgãos sexuais, no peso, na altura, na pele, no cabelo, na voz. Existe ainda uma maturação e desenvolvimento em termos cerebrais, estes passam a ter maior capacidade de abstração e raciocínio lógico num todo.

 

Mas a grande mudança ocorre em termos emocionais, essa incansável busca de compreender quem de fato são e tentam desvendar todos os mistérios dessa transição.

Já não são crianças, mas também não são adultos, estão em processo de preparação desta mudança, e necessitam de se afirmar nesta fase que é bastante complicada.

Sentem vergonha e alguns complexos. Sentem-se desajeitados por todas as mudanças que passaram a enfrentar no próprio corpo e com isso, também, acrescem as mudanças sociais, as exigências dos pais e as expectativas sobre si próprio.

 

É tudo uma confusão e uma explosão de emoção, como se o mundo estivesse caindo em cima das suas cabeças, é um misto de tristeza, euforia, medo excitação e mais um monte de sentimentos que até então eram totalmente desconhecidos. Bate um vazio no meio de tantas dúvidas e um sentimento de solidão que lhes consome a alma. Por mais que os pais tentem ajudar, ou, lhes digam que estão ali prontos para os ouvir, para os ajudar, eles sentem que este discurso é totalmente inútil e em nada podem ajudar.

 

Sentem que os pais seriam de fato os últimos, de alguma forma, a conseguir ajudar. Surge então a sensação como se não houvesse de fato ninguém no mundo capaz de os compreender, ou que pudesse mesmo os ajudar. Esse vazio é desesperador, chega a doer, e doí-lhes na alma, de uma forma que os pais jamais poderiam imaginar a dimensão e a proporção de como tudo isso é sentido, de como são afetados. Este impacto é forte, muitas vezes não são visíveis numa fase inicial, posteriormente começam a surgir os reflexos de todo esse mal.

 

Alguns adolescentes passam a se auto agredir física e emocionalmente como refugio deste sentimento de dor. Podem apresentar cortes na pele, arrancar os cabelos, intitularem nomes pejorativos perante os outros ou para si mesmos, desenvolverem transtornos alimentares, distorção de imagem, agressão aos colegas, abuso de álcool ou drogas ilícitas, abuso de tabaco, inicio de uma atividade sexual de risco, ou ainda numa tentativa mais desesperada de minimizar tudo o que sentem, acabam por pensar em suicídio como o único caminho, como a única solução.

 

Os pais na maioria das vezes não se apercebem dessa montanha-russa de sentimentos que os filhos estão vivendo, muitas vezes quando há evidências destes comportamentos, os sintomas já são bem mais profundos e ocultos. Os pais só enxergaram porque algo tornou-se desviante perante os seus olhos, como queixas da escola, roubos em casa, algum bilhete encontrado, um desabafo nas redes sociais, entre outros.

 

Numa tentativa desesperada de corrigir esses comportamentos e buscando o melhor para os seus filhos, os pais cercam-nos de castigos, privações, punições que aumentam ainda mais os sentimentos de frustrações e solidão destes adolescentes.

Por mais difícil que seja esta fase, o momento é para ter a cabeça “fria”, mesmo diante dos mais absurdos comportamentos. Lembre-se, eles já estão “desajustados emocionalmente” o bastante para lidarem com estas situações, caso você também fique nesse estado, em nada vai ajudar ou contribuir para que os problemas se resolvam, só vai estar pondo em causa a sua saúde.

 

Manter a calma continua sendo a melhor opção, espere aquele momento passar e somente depois chame o seu filho pra conversar.

Antes de o corrigir é muito importante que reafirme os laços de amor e amizade que sente por ele. Explique que o ama, que deseja o melhor deste mundo para a sua vida, que nada irá diminuir ou pôr em causa o que sente por ele, mas que por esta razão, também não pode admitir tal comportamento, e que o mesmo foi prejudicial para ele e para outros.

 

Tente compreender o porquê que o seu filho teve tal atitude, porque respondeu daquela forma, tente perceber o que está por trás da crise, da frustração, o que desencadeou tal comportamento. Que necessidade haveria de ser suprida. Neste momento, tente partilhar quais seriam as opções se ele tivesse desabafado com você, mostre que existiriam outras alternativas e formas de resolverem a questão.

 

Que juntos teriam resolvido o problema que tanto lhe afligia.

Tente transmitir calma e serenidade, pois é tudo o que eles não estão à espera nesse momento, surpreenda-o com palavras de amor e conforto, mesmo na hora de corrigi-lo. Assim você estará desarmando totalmente seu filho, pondo-lhe numa posição mais vulnerável irá diminuir as estratégias de defesa. Ficará muito mais acessível aos seus conselhos e ensinamentos, sendo mais fácil a construção de um elo de confiança quando surgirem os novos conflitos.

 

Por mais que os adolescentes transmitam frieza, independência e vontade de estarem sozinhos, no fundo são altamente carentes, necessitam de atenção e têm uma necessidade incrível de serem aceites como pessoas, tendo seus desejos, sua personalidade, suas opiniões respeitadas e ouvidas pela família e pelos amigos, no fundo precisam ter laços afetivos bem definidos e estreitados. Querem amizades sólidas e verdadeiras.

 

São frágeis e sensíveis, no fundo não sabem lidar com essa fase nova de sensações e sentimentos, e expor essa fragilidade de todo não faz parte dos seus planos.

 

foto: google imagens

 




SOBRE

Geisiane Dias
Geisiane Dias

*Geisiane Dias é psicóloga com especialização em neuropsicologia, pela universidade católica portuguesa de Lisboa.

@sua_terapia


6 COMENTÁRIOS

  • Vera Lucia Macedo

    24/11/2018

    Vivo isso com meu casal de filhos, numa época que não procurávamos ajuda de psicólogos. Isso era considerado desnecessário. Dávamos castigos, como menciona este artigo e a situação só piorava. É muito difícil. Só quem vive essa fase com os filhos é que sabe da preocupação que é.

  • Silvia Regina Alves

    24/11/2018

    Revivi a adolescência da minha filha. Não é nada fácil.

  • Ana nassif

    25/11/2018

    Realmente é uma fase delicada, é que se não tiver a devida atenção, vai refletir no futuro desse adolescente com sua família.

  • Rejane Borges

    26/11/2018

    Vivi essa fase q não foi fácil, confesso que fiquei perdida sem saber como agir com essa situação. Foi quando percebi que o diálogo e amor podia melhorar nossa convivência foi que eu fiz então o resultado foi gradativamente, hoje somos amigos estou feliz com o resultado.

  • Kenneth Mata

    29/11/2018

    Muito bom o texto, algo que se tem tornado mais comum do que imaginamos ou esperamos. O texto mostra o ponto de vista da criança, o que para um é excelente, faz nos calçar os sapatos das crianças e termos uma empatia e perceber que não é uma simples frase que vai se dissipar e ficará resolvido.

  • Geisi Ramos

    03/12/2018

    Artigo interessante! É muito importante os pais estarem atentos a cada necessidade de seus filhos, principalmente, em um tempo em que o ter tornou-se mais importante do que os laços afetivos. A correção é de fato indispensável, mas precisa ser feita com amor.


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